DISCURSO DIRECTO

01 junho, 2006

Timor mítico


No último “Quadratura do Círculo”, Pacheco Pereira afirmou, perante um atónito Jorge Coelho, que Portugal continua a olhar para Timor como se este país independente fosse uma espécie de um “paraíso mítico”, cujos problemas apenas foram exacerbados pela colonização portuguesa e a posterior ocupação indonésia.

Pacheco Pereira tem razão na sua análise. Os portugueses ainda não perceberam que Timor não é um paraíso e que a actual crise é o resultado de tensões que já existiam antes da independência do país e até muito antes da brutal ocupação da Indonésia.

Tensões regionais, tensões étnicas, tensões religiosas.

Nesse pedaço de ilha falam-se 15 línguas distintas e respectivos dialectos, cada um correspondente a uma etnia diferente. E pertencer a uma determinada etnia pode significar ter melhores condições de vida (em Dili há etnias específicas que controlam o comércio local e que, na prática, governam as ruas respectivas). Também ao nível religioso há sérios problemas. A maioria cristã, com manifesta cumplicidade da hierarquia católica local, mantém relações difíceis com as minorias religiosas existentes, designadamente a muçulmana. É óbvio que também ao nível político, estas diferenças se fazem sentir.

Veja-se apenas como nasceu a actual onda de violência. Cerca de 600 soldados da força de 1.400 militares de Timor entraram em greve. Protestaram contra os baixos salários e o que qualificaram como discriminação étnica na hora de promoções. Diziam ser preteridos por vir da região oeste do país. O primeiro-ministro Mari Alkatiri de imediato demitiu os grevistas. A partir daí, tudo aconteceu. Os soldados revoltaram-se e fugiram para as montanhas. Parte da polícia timorense aliou-se aos revoltosos. O presidente Xanana Gusmão entrou em rota de colisão com Alkatiri e bandos de “jovens” desempregados passaram a aterrorizar a capital, destruindo a cidade e assaltando os comerciantes (ao mesmo tempo que redefiniam o poder de quem governa cada rua...).
Na verdade, Timor ainda não se constituiu como Estado e muito menos como Nação. A aparente unidade entre os vários interesses conflituantes apenas se verificou contra o inimigo comum – a Indonésia. Agora, tudo recomeçou – tal como aconteceu quando Portugal deixou Timor.


 
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